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Publicado por Philipe Ribeiro e arquivado em Artigo, Diário
Este texto não é uma lista de lamentações pelo que não fiz neste ano e algumas promessas para 2007. É um momento de reflexão sobre as coisas que aconteceram e pude realizar um diálogo, além de um flashback de outros anos e momentos em que projetos nasceram, se desenvolveram e, alguns, tiveram que entrar em stand by.
Acredito que 2006 foi um ano “daqueles” muito bons. Consegui por em prática várias ações que há anos não saíam da cabeça e do papel. Tão bom como 2006, foi 2002, quando ajudei a fundar o CMI em Fortaleza nas manifestações contra o BID – depois de 5 anos de leituras solidárias sobre o anarquismo e raras conversas pela rede com anarcopunks. Em 2002 pude por pra fora aquilo que gritava há anos dentro de mim, entrentanto foram necessários alguns anos de aprendizado para entender, na vivência, que apenas gritos não mudam o mundo.
Hoje, 5 anos desde a criação do CMI e da minha relação mais direta com os movimentos pela democratização dos meios e da comunicação, de ação direta, dos movimentos sociais em geral, na luta pela terra e água – e há 10 anos desde as primeiras leituras libertárias, é que vejo que as coisas estão se tornando mais sólidas. Não acredito em um divisor de águas, quem faz isso são os religiosos, e nesse terreno continuo anticlerical; entendo como o amadurecimento de idéias, projetos e ações, não no sentido de dizer “é assim, desse jeito, e pronto”, mas na realização – pelo menos minimamente – daquilo que penso, faço e sonho há 10 anos, sempre aprendendo no cotidiano e reavaliando na vivência.
Linux
Conheci o Tux1 em 1998, um ano após conseguir comprar meu primeiro computador. Um amigo que usava linux disse que era muito difícil instalar, que era coisa de hacker – fazendo cara de inteligente. Em 2002 conheci o CMI e muitas pessoas que usavam linux, mas a distância e falta de gente que usasse perto de mim me deixava distante do pinguim. Nos anos seguintes cheguei a comprar revistas com Cds para instalar o Conectiva, o Mandrake, mas só tive coragem de rodar o live do Kurumin. Como não consegui acessar a rede, abandonei o linux. Só em 2006 pus o Ubuntu, em live, e tomei coragem, instalei. Hoje acesso a rede, edito imagem/áudio/vídeo no linux. Ah, e não poderia deixar de falar… o Cinelerra é mesmo muito bom. Adeus Premiere!
MetaReciclagem
A filosofia do software livre sempre me encantou, mas faltava dominar o hardware – monopolizado por empresas e especuladores. Algumas pessoas trabalhavam com o reaproveitamento de computadores antigos, rodando sistemas livres, com o intuito de fortalecer projetos socialmente engajados. Surgiram no sudeste cybercafés em ocupações de sem-teto e em associações de moradores nas periferias. Grupos como o CMI, Projeto Metáfora e Mídia Tática já dialogavam com essa idéia de copyleft do hardware2, mas em Fortaleza a gente não desmontava nem calculadora de R$ 1,99 – e ainda continuava pagando às almas sebosas dos técnicos de informática para que nossas máquinas rodassem minimamente em ambiente Ruindow$. Com a experiência do Projeto Metáfora surgiu a idéia de MetaReciclar, o metareciclagem.org e a lista metarec. No meio do ano entrei na lista, baixei o Livro Verde3 e comecei um trabalho de MetaReciclagem. Conseguimos 5 monitores, 4 gabinetes, 2 impresoras, uma dúzia de teclados, mouses e caixinhas de som – resultado: uma máquina metareciclada, rodando com o slackware e um monte de peças de reposição ou para uso artístico.
Rádio Livre
Conheci o conceito de rádio livre através da Rádio Muda, isso em meados de 2001, poucos dias depois de entrar pela primeira vez no sítio do CMI. Passei a ouvi-la por streaming. Depois veio o radiolivre.org e pude conhecer outras rádios. Nos protestos contra o BID em 2002, conseguimos com o Brad Will (CMI Nova Iorque) um transmissor FM de 1 watt, mas não colocamos a rádio no ar e enviamos o transmissor para São Paulo. Um ano depois passamos a produzir o CMI no Ar, um programa aperiódico em áudio veiculado no site do CMI Brasil. Uma questão era levantada: como levar os programas para mais pessoas, principalmente as que não tem acesso a internet? Assim, em 2006, nasceu a Rádio Mangue4, uma articulação para fomentar a criação de rádios livres e comunitárias no Ceará, já que não tínhamos nenhuma rádio livre no estado e as poucas rádios genuinamente comunitárias tinham sido fechadas pela Anatel. Em outubro aconteceu o Encontro Nacional de Rádios Livres, e depois o Submidialogia, onde a Rádio Mangue pode trocar experiências com várias rádios livres do Brasil. Hoje está em funcionamento a Rádio Redonda Livre, em Redonda (Icapuí/CE) e brevemente uma rádio comunitária entrará no ar em Fortaleza, na comunidade do Serviluz, além de várias conversas com outras comunidades interessadas.
Streaming
A dificuldade em montar uma rádio livre sempre deixou a gente, de Fortaleza, na ansiedade de transmitir áudios o quanto antes. Com a possibilidade de criação de webrádios no radiolivre.org, o que era então um desejo se tornou realidade neste ano. Recentemente, o estudiolivre.org passou, também, a dispor a tecnologia necessária para todos/as que desejam fazer uma rádio via streaming. Aqui, só conseguíamos transmitir no Ruindow$, usando winamp+oddcast. Com o encontro nacional de rádios livres, após a oficina facilitada pelo Juba (valeu irmão!), voltei pra Fortaleza sabendo transmitir com o DarkSnow. Há poucos dias chegou um e-mail do Juba falando do Theorur, que possibilita a mesma facilidade do DarkSnow, só que agora podemos trabalhar com streaming de vídeo!
Inclusão Digital
A necessidade de compartilhar conhecimentos sempre foi prioritária nestes últimos 10 anos e eu sentia que o CMI, como outros projetos que participava, tinha ir além dos muros das universidades. Surgiu, então, a oportunidade de trabalhar no Projeto Casa Brasil. Trata-se de uma iniciativa de inclusão social usando como ferramenta os computadores. O projeto é do governo federal em parceria com o CNPq, em seu primeiro projeto fora do ambiente universitário. O proponente do projeto em Fortaleza é a prefeitura e estamos inaugurando as primeiras 4 unidades em janeiro, onde funcionará um estúdio de rádio, telecentro, laboratório de metareciclagem, estúdio multimídia e sala de leitura, além dos auditórios e a cozinha experimental. As Casas terão acesso gratuito e estão localizadas em comunidades de baixo IDH.
Zona Costeira
Moro em Fortaleza desde que nasci e a zona costeira do Ceará sempre foi a rota preferida das minhas viagens. Por onde passava, o turismo de massa e a especulação imobiliária estava privatizando o litoral e expulsando as comunidades tradicionais de pescadores/as e, mais recentemente a carcinicultura (criação de camarão em viveiros), vem degradando as áreas litorâneas ao desmatar o ecossistema manguezal e ao poluir as águas estuarinas através do esgoto sem tratamento das carcomidas fazendas de camarão “clonado”. Em 2005, ao me formar, defendi uma dissertação em que analisava os impactos ambientais da carcinicultura no ecossistema manguezal. O resultado foi que esta atividade não tem sustentabilidade e não deve continuar. Com este estudo conheci os movimentos sociais da zona costeira, algumas comunidades e o Instituto Terramar, e participo desta luta pela afimação da vida na zona costeira desde então.
Terramar
Conheci a luta do Terramar no estudo da minha dissertação acadêmica. O espírito de resistência e mobilização desta ONG na assessoria às comunidades de pescadores/as foi o diferencial que fez com que eu me aproximasse, afinal, nos últimos anos temos visto muitas ONGs “chapa branca” apenas ocupando espaços nos conselhos de participação popular, comprometidas com os interesses governistas e sem nenhuma expressão nas comunidades que elas assessoram. Pude trabalhar com comunicação popular em algumas comunidades, levando como bagagem a experiência do CMI e voltando com minha mochila mais pesada, entendendo a complexa relação entre as comunidades e o mar.
Hoje, consegui que as duas vertentes do meu trabalho se encontrassem: a luta socioambiental e a mídia radical. O fortalecimento da comunicação dos movimentos sociais da zona costeira é fundamental para que a luta seja consolidada de Tatajuba à Redonda, em todo o litoral cearense. Temos como ferramentas as rádios livres e comunitárias, a internet e a produção audiovisual, além de expressões artísticas variadas.
2007 promete.
Que seja tão bom quanto 2006.
Que novas rádios livres e comunitárias façam, efetivamente, a reforma agrária do ar.
Na zona costeira estaremos na luta pela afirmação da vida.
E terra é vida na zona costeira!
E a água é de todos nós!
Fora os especuladores, grileiros, latifundiários e carcinicultores! Fora o hidronegócio, a carcinicultura e o monopólio das comunicações!
Podem calar uma voz, fechar uma rádio ou expulsar uma família de sua terra, mas jamais conseguirão fechar todas as nossas rádios, expulsar todas as comunidades de nossas terras nem calar a voz de todos/as os que lutam por um mundo com justiça socioambiental.
Venceremos, nenhum passo atrás.
1 Mascote oficial do sistema operativo GNU/Linux.
2 A Dri escreveu um interessante texto que fala deste assunto: http://converse.org.br/tecnologia_criativa_com_cultura_popular
3 Download aqui: http://oxossi.metareciclagem.org/moin//LivroVerde
4 Site da Rádio Mangue: http://mangue.radiolivre.org/
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Publicado por Philipe Ribeiro e arquivado em Artigo
É com muito pesar que recebi, na última sexta-feira, 27/10, a triste notícia do assassinato do companheiro, amigo e voluntário do Centro de Mídia Independente de Nova Iorque Brad Will. Ele cobria o levante popular e a resistência da Assembléia Popular do Povo de Oaxaca (APPO), México, quando foi morto com um tiro no peito em um dos ataques de grupos paramilitares pró-governo.
Brad esteve os últimos 4 anos numa longa viagem pela América Latina documentando as mobilizações contra os organismos multilaterais e demais lutas populares. Esteve em Fortaleza em 2002 nos protestos contra o BID, em Goiânia quando sua colaboraçãO foi decisiva para denunciar o massacre contra os sem-teto da ocupação Sonho Real, na Bolívia com matérias sobre a rebelião dos Aymara, nas assembléias e piquetes na Argentina e, no México, registrando a “Outra Campanha”.
Neste mês de outubro ele voltou ao México para registrar a coalizão de grupos e movimentos sociais (APPO), que foi formada após a greve dos professores na cidade de Caliente, contra o governo estadual. A APPO pede a renúncia de Ulises Ruiz Ortiz, governador do estado de Oaxaca, acusado de corrupção e fraude eleitoral. Ela defende a substituição do governo do estado por assembléias populares.
Brad estava cobrindo uma barricada organizada pela APPO quando um grupo paramilitar, ligado ao governo, atacou os manifestantes. Ele filmava na ocasião e morreu com a câmera na mão. As fotos de um jornalista do jornal local El Universal e as próprias filmagens registradas por Brad antes de morrer permitiram a identificação dos assassinos.
Que as lágrimas de Fortaleza, Goiânia, Argentina, Bolívia, Nova Iorque e Oaxaca sejam transformadas em uma chuva descentralizada de lutas por onde Brad andou e, por ventura, andaria.
Descanse em paz, companheiro, que não haverá paz para os poderosos!
E como você sempre dizia nos e-mails que trocávamos:
Solidaridad,
Philipe Ribeiro
Voluntário do Centro de Mídia Independente de Fortaleza
Video de Brad filmando a barricada da APPO e sua própria morte
http://video.indymedia.org/en/2006/10/542.shtml
Vídeo com imagens de Brad denunciando a violência contra os sem-teto em Goiânia
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2005/04/315460.shtml
Última matéria escrita por Brad para o CMI Nova Iorque
http://nyc.indymedia.org/en/2006/10/77760.html
Editorial no CMI Brasil
http://www.midiaindependente.org/pt/red/2006/10/363227.shtml
Fotos dos paramilitares que atiraram
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2006/10/363258.shtml
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Publicado por Philipe Ribeiro e arquivado em Artigo, Notícias
Entrevista – Parte II
A seguir a segunda parte da entrevista com o eco-libertário Philipe Ribeiro, de Fortaleza, Ceará.
Agência de Notícias Anarquistas > Uma coisa positiva que notei em Fortaleza é a grande quantidade de árvores na cidade, e muitas frutíferas. Aliás, essa cidade tem “muitas” árvores plantadas no meio das ruas e avenidas! [risos]
Philipe Ribeiro < Como diria Drummond, “Uma flor nasceu na rua! [...] Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.” – no meio de tantas agressões socioambientais ainda há resistência. Devíamos ter mais árvores nas ruas, mas vez ou outra se corta uma sem muito sentido. Hoje está melhor, as pessoas estão minimamente sensibilizadas. Antigamente não se desviava um milímetro para poupar uma árvore num projeto arquitetônico, atualmente parece ser “chique” não cortá-las… melhor pra gente, pro mundo…
ANA > Realmente, mais árvores, mais beleza, mais saúde… Mas tem outra coisa interessante, digamos “anárquica”, que se passa em Fortaleza, são as mangas que se desprendem das mangueiras e caem sobre os carros, causando prejuízos aos seus donos. [risos]
Philipe < Em Fortaleza acontece isso em alguns bairros, mas vi muito mais com os coqueiros da Praia de Lagoinha, um paraíso que conheci há mais de dez anos e que hoje foi invadida pela especulação imobiliária. Tem uma antiga pousada lá que é margeada pela rua principal e a cada cinco metros tem um coqueiro imenso. Eu ia pra lá na infância e um dos meus passatempos preferidos era contar quantos vidros eram quebrados por dia. E sempre quebrava pelo menos um ou dois – geralmente na parte da tarde – era muito divertido!
ANA > Durante seu primeiro comício em Fortaleza, dia 13 de agosto, Lula e sua “turma” garantiram a transposição das águas do Rio São Francisco, a Transnordestina, a Siderúrgica do Ceará, e a instalação da Refinaria da Petrobrás em Pernambuco. No Ceará há dissidência organizada contra esses projetos megalomaníacos?
Philipe < O que vejo de contraponto são algumas ONG’s e setores de esquerda, como os fóruns, que tem posição contrária à transposição do Rio São Francisco. Contra os outros projetos não há mobilizações. Neste ponto a universidade está um pouco apática, não vejo articulações em cursos com o de Geografia da Universidade Federal para puxar um comitê de luta ou algo do gênero, ainda estão nas disputas de centros acadêmicos e diretórios centrais no sentido de servir de trampolim na hierarquia partidária – que é uma leitura política já superada há alguns anos e reforçada com o levante zapatista de 1994 e os movimentos antiglobalização que sucederam, atualmente presentes em grupos e comunidades agroecológicas, de produção independente de mídia, de reciclagem de tecnologia através da metareciclagem e o uso de softwares livres, enfim, grupos e indivíduos que se organizam de forma solidária e horizontal.
ANA > Você sabia que no governo Lula caiu o número de denúncias de crimes ambientais? Aparelhamento das ONG’s? [risos]
Philipe < Não sei se o termo correto seria aparelhar. Vejamos o caso de Fortaleza: estamos num governo petista municipal e o órgão que executa as políticas ambientais do município é formado, na sua maioria, por militantes do movimento ambiental e urbano. Muitos trabalhavam em ONG’s. Falo dos terceirizados e cargos de confiança. O que aconteceu? A maioria das pessoas que tinham trabalhos importantes nas comunidades ficaram encantadas com o poder. Resultado: saíram das ONG’s, distanciaram-se das lutas populares e assumiram cargos na prefeitura. Isso gerou uma desestruturação de muitas ONG’s e movimentos urbanos, já que não havia gente capacitada para assumir tais responsabilidades, tornando estas organizações praticamente inertes, ou sem interferência no cenário político local. Há de se analisar que muitas entidades se estruturam de forma vertical e, ao sair alguns membros da diretoria, quase que realizam o enterro. Outro fato relevante é que algumas não tem um compromisso político com as lutas socioambientais, servindo muitas vezes de cabide de emprego ou fazendo educação ambiental por fazer, um fim em si mesmo, ao achar que é necessário – sem analisar a conjuntura, o próximo passo. Ah, tinha esquecido de falar do “rabo preso”… mas isso acontece nas melhores famílias, nas melhores ONG’s… e nas piores também. [risos]
ANA > Um tempinho atrás você tinha me contado uma história “interessante” sobre o Greenpeace, quando eles atracaram um de seus barcos por aí, quando iam para a Amazônia. Poderia contar novamente? [risos]
Philipe < Em maio um dos barcos de “trabalho” do Greenpeace atracou em Fortaleza, em direção à Amazônia. Fui lá ver o barco e tirar umas conclusões. Ao sair, de supetão, um camarada do Greenpeace veio pedir para que eu contribuísse financeiramente com o projeto, via cartão de crédito. Falei que podia ajudar com trabalho, pois sou da área ambiental. O cara nem quis pegar meu e-mail, já meu dinheiro ele queria sim. Falei das lutas que temos aqui contra a destruição do manguezal, contra as fazendas de camarão e insisti pra que ele pegasse meu e-mail. Ele não quis e falou que eu podia dar meu contato pra uma garota que estava numa mesa com artigos do Greenpeace. Quando fui lá, ela me entregou um folder que no fim tinha “deseja receber nossas notícias” e pus meu e-mail, enfim, ali não era lugar pra por um contato de articulação do movimento ambiental, e sim, um espaço para receber notícias. Um monte de gente fez fila para preencher o tal formulário e embarquei na onda. Desconfio que era porque, ao colocar o e-mail, ganhava um cartãozinho. [risos] Quando alguém procura os movimentos sociais urbanos e rurais dos quais já fiz/faço parte, nós temos o maior prazer em receber as pessoas já que sabemos da dificuldade que é articular contatos. E não foi isso que vi naquela organização. Notei que eles não estão muito interessados em militantes pra engrossar o caldo da luta, ativamente. Em Fortaleza, o que deu pra perceber que eles preferem um pequeno financiador passivo, e ausente, a um ativista que pode contribuir nas discussões, no trabalho interno e nas ações diretas. Confesso que já sabia disso, a Sea Shepherd é a prova viva do “monstro verde” que se tornou o Greenpeace e ninguém melhor que um dos seus fundadores, Paul Watson, para subscrever o que digo.
ANA > Com certeza eles não querem militantes ativos, o que querem é sócios contribuintes, pessoas de bom coração. [risos] Você já viu alguma reunião aberta desta ONG? Lá tudo segue um poder piramidal, duma elite intelectual, “branca”, com gestão profissional, departamentos de captação de fundos, projetos, marketing… Uma vez perguntei para um deles: “se vocês têm milhares de filiados, principalmente em São Paulo, porque não mobilizam este pessoal para irem para às ruas sobre determinada luta ecológica?” Não respondeu nada. Cara, uma vez visitei um dos barcos do Greenpeace que estava atracado no Porto de Santos, é sério, os caras pareciam mais comerciantes, lembro que até modelos eles contrataram para “vender seu peixe”. Ao meu ver temos que refletir muito bem sobre o papel das ONG’s, eu desconfio de muitas delas. [risos]
Philipe < Nunca participei de uma reunião deles e acredito que você não exagerou ao falar que as reuniões seguem um poder muito hierarquizado. A forma que eles me trataram em Fortaleza só reforça o descaso pela luta e a busca pelo lucro. Por outro lado, temos que analisar a passividade inerte das pessoas que contribuem com ONG’s e grupos “politicamente e estrategicamente antenados” com o Greenpeace: são pessoas que não tomam para si o controle de suas vidas e entregam ao primeiro “salvador da pátria” – neste caso, do meio ambiente. Uma ONG tão “morna” como o Greenpeace deveria ter pelo menos um trabalho de educação ambiental, mas não tem. Perguntei isso pra eles e me falaram que só acontece uma ou outra palestrinha quando uma “tia da escola” chama-os no dia da árvore, na semana do meio ambiente – coisas assim. Acredito que um movimento ambiental, forte, necessita mesclar a ação direta com a educação ambiental. No Ceará há um trabalho de reflexão com as comunidades sobre a conjuntura política que gera as problemáticas socioambientais no litoral. As próprias comunidades fazem uma conscientização boca-a-boca e, ao se esgotar toda a passividade que engoliram há anos, partem para as ações diretas. Em Curral Velho, município de Acaraú, a comunidade se reuniu durante o dia, arrancou e queimou uma grande extensão de cercas que privatizavam áreas da União. Nunca mais o proprietário das fazendas de camarão teve coragem de apropriar-se de terras públicas. Na Caponga, município de Cascavel, a pesca predatória com o uso do compressor não tinha fim. A comunidade se organizou e queimou uma jangada “pirata”. Nunca mais se pescou com compressor na Caponga. Quando os povos do mar se unem, realizam suas ações durante o dia e não tem empresário, prefeito ou polícia que impeça – afinal – qual a delegacia do interior que comporta mais de cinqüenta, oitenta presos? Às vezes tem repressão, como já houve feridos a bala em Curral Velho, mas nem por isso a luta vai parar. Vejo que o trabalho político de base, horizontal, deve ser permanente – entretanto – ao se esgotarem todas as perspectivas de reivindicação pela via institucional… não há outra forma a não ser a ação direta. E isso não sou eu quem fala, é a história, são os acontecimentos. Os pescadores e pescadoras ao verem o manguezal ser destruído, sempre irão reagir, e é muito justo, o ecossistema manguezal é a principal fonte de proteína para a manutenção da segurança alimentar de dezenas de comunidades.
ANA > Recentemente você esteve rodando o Ceará com o movimento ambientalista, ONG’s… o que você destacaria nesta viagem, o que te chamou atenção?
Philipe < Em julho estive em Tatajuba, uma comunidade do litoral oeste próximo ao estado do Piauí, onde aconteceu a II Assembléia dos Movimentos Sociais da Zona Costeira do Ceará. No fim da assembléia fomos para a cidade de Camocim realizar mais um Desate, que é uma manifestação dos povos do mar em que se afirma a vida na Zona Costeira com o fortalecimento da resistência das comunidades pesqueiras. Escrevi um artigo sobre a assembléia e o link está disponível no fim da entrevista. No início de agosto fui para a praia de Águas Belas, no município de Cascavel [litoral leste], onde ministrei a oficina de rádio no Curso de Desenvolvimento Institucional – uma das oficinas do módulo de comunicação, o último do curso. O Fórum de Defesa da Zona Costeira do Ceará foi quem promoveu, mas tiveram vários sujeitos envolvidos como o Instituto Terramar, o Conselho Pastoral dos Pescadores e o Fórum dos Pescadores e Pescadoras do Litoral Cearense. No final de agosto participei do seminário “Manguezais e Vida Comunitária – Impactos Socioambientais da Carcinicultura”, em Fortaleza, que tinha por objetivo mobilizar as comunidades do litoral brasileiro frente à ameaça das fazendas de camarão. No início do seminário fizemos uma visita às comunidades do Porto do Céu e Cumbe que sofrem diretamente com a degradação promovida pelos viveiros de camarão, que culminou com uma manifestação puxada por cerca de duzentos[as] pescadores[as] de 15 estados do Brasil na cidade de Aracati [litoral leste], no sentido de alertar os problemas socioambientais da carcinicultura e fortalecer a luta pela manutenção das atividades tradicionais de subsistência e qualidade ambiental da Zona Costeira. Os movimentos sociais que se articulam no litoral cearense tem se destacado por uma mobilização popular que trabalha de forma horizontal em fóruns de discussão, assembléias e cursos de capacitação política, conforme visto neste pequeno relato das minhas andanças com os povos do mar. É muito importante esta organização popular autogestionária, longe do modelo ultrapassado de se fazer política por meio do voto. Há um descrédito aos políticos burgueses, no entendimento que eles só beneficiam os projetos das grandes empresas e das elites locais. Os povos do mar tem criado espaços de intercâmbio cultural nas comunidades e há uma rede, mesmo que informal, de economia solidária – na qual circulam o artesanato de vários pontos do litoral. Algumas articulações têm contribuído na consolidação da produção midiática do movimento, de forma solidária e colaborativa, através dos núcleos de comunicação da Rede de Educação Ambiental do Litoral Cearense, do jornal impresso “Tecendo Resistência”, do boletim eletrônico e de iniciativas de rádio livre.
ANA > Quer acrescentar algo pra finalizar? Obrigado!
Philipe < As condições objetivas foram postas pelos poderosos, como a especulação imobiliária e a carcinicultura. Os movimentos sociais, se quiserem avançar na luta, precisam fortalecer as condições subjetivas, que podem ser agrupadas no que chamamos de organização. E essa organização necessita ser coletivizada, desde os pescadores e pescadoras, ambientalistas, simpatizantes e apoiadores em geral, no caso dos povos do mar. O zapatismo se fortaleceu nas montanhas da Selva Lacandona caminhando com os passos dos mais lentos, mas juntos, sem intermediários. Assim, acredito, que iremos agir ao invés de reagir!
> Philipe Ribeiro
philipe@riseup.net
> Projeto Ciclovida
www.ciclovida.cjb.net
> Movimentos Sociais da Zona Costeira dão aula de democracia
www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=23589
agência de notícias anarquistas – ana
Arbusto de hibisco
suavemente balança
filhote de pássaro.
(Regina Andrade)
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Publicado por Philipe Ribeiro e arquivado em Artigo, Notícias
Entrevista – Parte I
Nesta entrevista dividida em duas partes, o eco-libertário Philipe Ribeiro, de Fortaleza, nos conta um pouco sobre os problemas e lutas ambientais no Ceará. Recentemente ele esteve dando um giro por algumas cidades litorâneas do Estado, conhecendo principalmente a realidade e lutas dos povos do mar.
Agência de Notícias Anarquistas > Na prática há movimento “anarquista verde” no Ceará, ou é como no resto do Brasil, coisa de individualidades anarquistas que se preocupam e se movem com questões ligadas ao meio ambiente, a multiplicidade da vida?
Philipe Ribeiro < No Ceará temos, há alguns anos, um trabalho com companheiros e companheiras de três assentamentos rurais que usam técnicas agroecológicas de cultivo e propõe um pacto com a terra, no sentido de que as questões sociais, econômicas e ambientais caminhem juntas numa perspectiva de respeito mútuo. Não há um grupo “anarquista verde” formado, mas indivíduos de outros grupos e individualidades que se articulam, por afinidade, de acordo com a necessidade. O Assentamento 24 de Abril [Acarape/CE], por exemplo, estava dividido em dois: o Grupo Majoritário e o Grupo Autônomo. O primeiro servia o capital sem nenhuma reflexão e usava de todos os artifícios, inclusive queimadas, para plantar e colher cana-de-açúcar a fim de vender para uma fábrica de cachaça de uma grande agroindústria local. O Grupo Autônomo tentou articular o assentamento inteiro para refletir sobre as queimadas e o corte desenfreado da mata, mas os próprios técnicos do governo federal [IBAMA, INCRA] admitiam a “queimada responsável” e o corte de trechos da mata. O conflito entre os dois grupos se intensificou e a resposta do governo federal [INCRA] foi a expulsão do cadastro de uma família do Grupo Autônomo, que iria comprometer a organização do grupo. Fizemos uma mobilização em Fortaleza com ativistas de vários grupos, dentre eles anarquistas, ecologistas e universitários contra a expulsão desta família. A ajuda internacional de grupos anarquistas foi muito importante, deu uma pressão política mais forte. A solidariedade internacional com recursos financeiros serviu para pagar os honorários do advogado, já que não conseguimos um que tivesse comprometimento com a causa. Resultado: não houve a expulsão e o assentamento foi dividido em dois. Foi uma vitória parcial, já que queríamos que o pacto com a terra se estendesse por todo o assentamento rural, mas diante da conjuntura daquele momento podemos dizer que tivemos êxito. Uma outra família do Assentamento 24 de Abril saiu há um pouco mais de um mês, de bicicleta, com destino à Argentina. O projeto se chama Ciclovida e propõe um resgate das sementes crioulas [de comunidade] e contra o agronegócio. O Ciclovida cruzará o Brasil articulando nos assentamentos rurais e, por ventura, grandes cidades – com o intuito de fortalecer o compromisso de um pacto com a terra. Acredito que os[as] companheiros[as] irão contribuir para o fortalecimento do anarquismo verde no Brasil.
ANA > E como os grupos e individualidades libertárias podem ajudar esses compas nessa jornada?
Philipe < A solidariedade pode ser feita com a divulgação do Projeto Ciclovida em jornais, fanzines, informativos e outros meios de comunicação do movimento libertário. Outra forma é através da organização de seminários, palestras e oficinas em comunidades rurais e urbanas, escolas, universidades e nos demais espaços de luta que a família de trabalhadores rurais tenha a possibilidade de dialogar sobre a questão do resgate das sementes crioulas, o processo de cura natural como alternativa à medicina tradicional, o uso da bicicleta como meio de transporte ecológico e a questão fundiária no Brasil. A ajuda pode ser, ainda, por meio de uma campanha para arrecadação de fundos, já que o Ciclovida não dispõe de nenhum financiamento. O projeto está se sustentando minimamente com a venda dos cordéis do companheiro Inácio e, também, do CD que produzimos com vinte músicas retratando os últimos vinte anos de “reforma agrária” no Brasil. Tenho contribuído com a logística do Ciclovida e se alguém se interessar no projeto pode falar diretamente comigo ou através do sítio do Ciclovida. Os endereços de contato estão no fim da entrevista.
ANA > E hoje, quais os principais problemas ambientais no Ceará? Uma coisa que me chamou a atenção quando estive aí foi o vasto número de construções de grandes complexos hoteleiros, ressorts, praticamente em todo litoral cearense…
Philipe < O entendimento das questões políticas no Ceará se faz necessário por meio do resgate do modelo imposto pelo governo do Estado, que está nas mãos do PSDB há vinte anos. Esse modelo político beneficia o capital estrangeiro, a instalação de grandes grupos empresariais dos mais diversos ramos e toda a estrutura arcaica, ultrapassada e antidemocrática de realizar grandes obras e promover um forte marketing no intuito de fazer crer que o aporte de capital estrangeiro e a instalação de grandes empresas no Estado é o único meio possível para o “desenvolvimento”. Não podemos esquecer que tais obras são custeadas pelo BID [Banco Interamericano de Desenvolvimento], que investe pesado no Estado, trazendo muito dinheiro para grandes obras e guiando as políticas públicas de acordo com a política de financiamento e empréstimo do banco. Para piorar o panorama, temos ainda o Prodetur, um ambicioso projeto que visa o desenvolvimento do turismo no nordeste, promovido pelo Banco do Nordeste e endo$$ado pelo famigerado BID. As cartilhas do Prodetur são trilingües [português, inglês e espanhol] e é um verdadeiro banco de negócios, como podemos ver neste trecho: “uma economia em permanente expansão, que fica ainda mais forte com incentivos fiscais, e uma mão-de-obra com alta capacidade de absorção de treinamento e tecnologia”. Traduzo no português de mercador como “uma economia que pode ser livremente explorada [sobretudo na concorrência desleal com as atividades locais de subsistência], onde não se paga praticamente nenhum imposto [e assim o governo deixa de arrecadar, ficando sem dinheiro em caixa para subsidiar e fomentar projetos locais de educação, saúde, moradia...] e uma mão-de-obra passível de exploração com uma capacidade de submissão em expansão”. No tocante ao meio ambiente, é mais enojaste: “8 novos aeroportos, estradas, eletrificação, saneamento, PRESERVAÇÃO DO MEIO AMBIENTE e recuperação do patrimônio histórico fazem do Nordeste destino dos novos investimentos em turismo”. Preservação do meio ambiente? Isso é uma falácia! O turismo de massa é um dos principais responsáveis pelo desmatamento de áreas do ecossistema manguezal, além de interferências diretas e indiretas em vários estuários ao longo de todo o litoral – sem esquecer do forte conflito cultural com as comunidades tradicionais de pescadores e pescadoras. Esse tipo de turismo se desenvolveu na década de 80 e 90, consolidando-se nos últimos vinte anos. Temos desde a década de 70 a especulação imobiliária, principalmente no litoral, pela construção das casas de veraneio. Para piorar o quadro socioambiental do Estado, em 1999 a criação de camarão em cativeiro [carcinicultura] cresceu de forma vertiginosa e degradante ao destruir extensas áreas do ecossistema manguezal, comprometendo a diversidade ambiental e as atividades tradicionais de subsistência, como a pesca e a mariscada. Estamos rodeados por grandes projetos de empresas internacionais, sobretudo portugueses e espanhóis, numa clara e evidente recolonização do nordeste brasileiro. Um pescador contou na última Assembléia dos Movimentos Sociais da Zona Costeira, que um megainvestidor chegou em sua comunidade falando que iria construir um grande complexo hoteleiro que daria emprego para centenas de pessoas. O empreendimento contrataria pessoas da comunidade para a cozinha e o carregamento de malas. O pescador olhou-o nos olhos, coçou a cabeça e respondeu: “Mas moço… e pra PESCADOR vai ter emprego?”.
ANA > O descaso aos manguezais e lagoas em Fortaleza também são bem grande, não?
Philipe < As lagoas daqui, como na maioria das grandes cidades do mundo, simplesmente agonizam por um conjunto de fatores, tais como o assoreamento, o aterramento, a eutrofização, a especulação imobiliária e, claro, a poluição através da descarga de esgotos clandestinos nesses corpos hídricos. Os manguezais sofrem todas essas mazelas e mais ainda o desmatamento da mata ciliar dos rios e bosques de mangue, que são áreas de preservação permanente de acordo com o Código Florestal. Ainda temos uma grande área de manguezais ao longo do Rio Cocó, que corta a cidade, mas as interferências humanas têm levado esse ecossistema à níveis preocupantes de perda da qualidade ambiental. Algumas medidas de recuperação tem sido tomadas, só que a educação ambiental ou não se realiza em conjunto, ou ela anda vagarosamente – sem continuidade entre um projeto e outro, assim, a degradação retorna.
ANA > Outra coisa curiosa que percebi quando estive em Fortaleza foi a quantidade de veículos 4×4 rodando nas ruas e avenidas da cidade. Veja só, acabei descobrindo que proporcionalmente Fortaleza é a cidade com o maior número desses carros no Brasil. E esse carro é um dos que mais contamina o ar. Louco, não? [risos]
Philipe < Todo carro contamina o ar, e muito. Os carros movidos a diesel são os mais poluentes e é aí onde entra a sua afirmação: a maioria dos carros 4×4 são à diesel, portanto, mais prejudiciais ao meio ambiente. Realmente, aqui a proporção de carros 4×4 é grande, mas deve-se ao fato de termos um litoral muito bonito e explorado sem pudor pelos marqueteiros do turismo de massa. Uma alternativa, a médio prazo, seria o incentivo ao uso de combustíveis menos prejudicais, como o gás natural, já que duvido muito que uma “dondoca” vá andar de bicicleta pelas praias sem que isso seja a última moda em Paris ou da novela das oito. Fortaleza é mais uma das grandes cidades brasileiras que apresenta uma concentração de renda a nível imperial. Certa vez li uma reportagem em que nossa cidade tinha um dos maiores índices de carros importados e, também, um dos primeiros lugares em inadimplência no setor. Aqui se vive muito “de fachada”, muitos pensam que vivem em Londres e levam a vida com muito luxo e pouco “no bucho”. A Fortaleza dos bairros nobres e “do turista” é saneada, iluminada e policiada, já a periferia agoniza com medidas paliativas. Temos 94 áreas de risco na cidade: entra governo, sai governo e nada muda. Hoje a prefeitura é administrada pelo PT depois de vinte anos nas mãos da direita. A prefeita, que é de um dos setores mais “esquerdistas” do partido, a DS [Democracia Socialista], mudou o discurso quando chegou ao poder. Em 2002 ela esteve nos protestos contra o BID e hoje está dando continuidade a um projeto do ex-prefeito Juraci Magalhães [PMDB] chamado BIDFor [pior nome impossível], que vi$a o reordenamento do transporte com a implantação de três corredores com faixas exclusivas para ônibus, ampliação das paradas e terminais e a inclusão de duzentos ônibus articulados. Não se fala em inclusão dos “sem transporte”, muito menos do passe livre para estudantes e trabalhadores[as].
ANA > Sim, todos os carros contaminam o ar, mas a questão dos 4×4 é que além de poluentes, é um carro para o campo, e não para a cidade, ademais é um carro grande, ocupa muito espaço. E o tragicômico nessa história, é que a maioria dos últimos modelos batizados de “ecosports”, levam aquele selinho do Ibama, que atendem a legislação ambiental. Ora, ora…
Philipe < É uma questão puramente mercadológica. Esses carros 4×4 realmente ocupam muito espaço, consomem muito combustível e, assim, poluem bastante. Os modelos vendidos no Brasil são menores que os americanos, ainda bem, lá a problemática é maior porque é cultural o americano gostar de imensas picapes. Já os modelos “ecosports” são desenvolvidos para o típico “aventureiro de fim de semana”. É um carro mais barato que os modelos genuinamente 4×4 e que tem uma performance muito boa para quem não exige muito do carro nas trilhas ou que anda fora do asfalto uma vez ou outra. O mercado automobilístico vai criando modelos de acordo com a demanda e, se alguns governos ou usuários quiserem um carro que seja “ambientalmente correto”, pode ter certeza que eles vão colocar mais filtros para poluir um pouco menos, colar selos “ambientais”, confeccionar camisas e chaveiros do tipo “eu amo a natureza, eu uso um ecosport”…
ANA > Uma coisa que tem que ficar bem clara é que os automóveis produzem diversos contaminantes, não só pela queima de combustão, mas também pelos líquidos e amianto dos freios, a poluição acústica etc. E isso sem falar da contaminação produzida pelas indústrias indiretamente relacionadas com o automóvel, como embalagens, lubrificantes, petroquímicas, uso da água na lavagem dos carros…
Philipe < O uso desenfreado dos carros particulares é o grande problema, penso eu, da questão do transporte. Podemos pressionar o governo federal para redução dos contaminantes em toda a linha de produção e manutenção automobilísticas, entretanto se não combatermos o uso irracional, estaremos sempre um passo atrás da problemática. Daí a necessidade de otimizarmos o sistema coletivo de transporte, metrô e ônibus integrados, como também a bicicleta numa alternativa para pequenos trajetos.
ANA > Também não podemos esquecer que além de toda contaminação do ar que o carro proporciona, ele ainda causa milhares de mortes e de inválidos por ano em todo Brasil.
Philipe < Isso é verdade. Segundo o DENATRAN [2002], houve 18.877 vítimas fatais em acidentes de trânsito e 318.313 vítimas não fatais. Carnificina sobre quatro rodas, sem dúvida. E o quadro evolutivo dos acidentes oscila um pouco mas não difere muito destes valores. Há na necessidade de por em prática uma outra forma de se pensar o transporte…
ANA > Falando sobre transporte, como é complicado andar de bicicleta em Fortaleza, não? Essa cidade tem muitos carros! O centro de Fortaleza é muito pior que São Paulo. [risos]
Philipe < Fortaleza, como muitas cidades do Brasil, foi projetada no modelo europeu da época. Só que os engenheiros e arquitetos esqueceram que aqui o clima é tropical e até hoje sofremos esse erro primário de construção civil. O centro da cidade foi idealizado com ruas estreitas e imóveis germinados, em que não há recuo das laterais das edificações, resultado: não há espaço para ventilação. Para o padrão europeu é muito bom, esquenta os imóveis, mas para climas tropicais não podemos esquentar o que já ferve. Se até hoje não houve interesse em repensar a ventilação dos imóveis do centro, quem dirá a questão da bicicleta! No projeto do BidFor diz que haverá a construção de ciclovias [espero que construam, embora duvide bastante], entretanto se tais obras não forem discutidas com os usuários, servirão apenas de marketing político da prefeita e enriquecimento das construtoras. Ao mencionar “usuários”, não falo da meia dúzia de jovens e adultos ricos que pedalam na Avenida Beira-mar, o recanto preferido dos turistas, mas da maioria dos ciclistas que são pessoas das camadas mais pobres da população, que vão de bicicleta para o trabalho a fim de economizar com as passagens de ônibus, atravessando a cidade das periferias aos bairros nobres e necessitam que as ciclovias existentes e as futuras sejam integradas. Só quem realmente usa os serviços públicos é que sabe as deficiências e demandas.
ANA > Essa prefeita está equivocada, pois não é necessário construir mais ciclovias, estruturas… A questão é ir efetivamente contra o automóvel, é tirar espaços desses “monstros motorizados” já existentes e oferecer para os pedestres e ciclistas, “humanizar” a cidade. Ao meu ver aquele belo centro histórico de Fortaleza não deveria circular carros. O que acha?
Philipe < Acredito que devemos raciocinar conforme Chomsky em seu livro “Notas sobre o Anarquismo”, editado pela Editora Imaginário e Sedição Editorial em 2004, no qual ele se refere às metas e projetos: “Por projetos, eu quero dizer a concepção de uma sociedade futura que inspire o que realmente fazemos, uma sociedade na qual um ser humano respeitável gostaria de viver. Por metas, eu quero dizer as escolhas e tarefas que estão a nosso alcance, e iremos seguir um caminho ou outro, guiados por um projeto que pode estar distante e não ser muito bem acabado. [...] As metas e os projetos podem parecer estar em conflito, e freqüentemente estão. Mas não há contradição nisso, como creio que todos saibamos pelas costumeiras experiências”. Fiz esse preâmbulo para afirmar que é importante pensarmos a questão do transporte nestas duas perspectivas. Como projeto, e entenda-se como medidas a longo prazo, endosso o que você disse na pergunta: temos que tirar os automóveis das ruas e humanizá-los para o uso de pedestres e ciclistas, entretanto, uma mudança radical desta é possível, somente, com uma grande mobilização popular que não temos. E tal mudança se faz necessária para a inclusão das pessoas no contexto social, mas vejamos: numa cidade como São Paulo, ou Fortaleza, o que faremos para vencer as grandes distâncias sem os veículos motorizados? E a questão dos deficientes físicos, mentais, como incluí-los nesse panorama se sua locomoção é especial? Tenho um primo nesta situação e não sei como faria se não tivesse um automóvel. É um nó aparentemente complicado para desatar, e é aí onde entram as metas, compreendidas como medidas a curto prazo: podemos trabalhar no sentido de se evitar, ao máximo, o uso de carros particulares para pequenos trajetos. Para estas distâncias podemos ir a pé ou de bicicleta. Em grandes distâncias, de leste a oeste da cidade, se estamos sem bagagens e sozinhos, a melhor opção é usarmos o ônibus [aqui não tem metrô]. As compras nos supermercados também podemos fazê-las sem carro e vários deles já dispõem de um serviço gratuito que entrega em domicílio. Ótimo, são três exemplos de que não precisamos usar o carro. No entanto, apenas medidas individuais não bastam. E é aí onde, mesmo em conflito com o projeto anarquista, legitimo uma meta que é reformista por excelência: cobrar da prefeita a construção e integração das ciclovias e, para os ônibus, exigir mais linhas, melhoria da qualidade do serviço e a gratuidade do uso – entendido que quem deve pagar é quem se beneficia pela minha viagem [os empresários, patrões, lojistas - quando vou e volto do trabalho, por exemplo] e não eu, como usuário. Entendo que ao minimizarmos o uso dos carros particulares e maximizarmos o uso dos coletivos e das bicicletas, estaremos dando um salto importante na questão do transporte. No centro de Fortaleza temos duas ruas que viraram calçadões, podemos ter – sem dúvida – mais ruas transformadas em grandes calçadas, mas há de se estudar a logística quanto o combate aos incêndios, sistemas de água e esgoto, segurança, infra-estrutura para abastecer as lojas e por aí vai. Um projeto municipal pretende interligar a praça José de Alencar à praça da Lagoinha, uma obra muito importante para o centro. Se forem interligadas, estaremos dando mais um passo para a humanização da cidade e devemos cobrar [mesmo que legitimemos pontualmente o reformismo] da gestora pública a realização desta obra. O fundamental é que nós, libertários, possamos trabalhar nossas metas apontando para o nosso projeto maior: uma sociedade em que caibam várias sociedades.
ANA > Além de um transporte público gratuito, ecológico e eficaz, do uso da bicicleta, as pessoas deveriam reaprender a andar, caminhar… Temos que desacelerar o tempo “moderno”. Você já ouviu falar do “movimento slow”? É um movimento que desafia o culto da velocidade, é interessante…
Philipe < O mundo moderno é insano. Tenta ser veloz e poucos acompanham. Vá num banco no dia de pagamento dos aposentados ou do bolsa-família e veja que a grande maioria das pessoas de todas as filas não sabem usar o caixa eletrônico e ficam feito baratas tontas nas agências à procura de um funcionário do banco. A tecnologia chegou e as pessoas não conseguem usá-la. Do outro ponto da corda há a frenética busca pela alta tecnologia e os computadores, por exemplo, viram lixo tecnológico em poucos anos – embora continuem funcionando. E são idéias de mesclar o moderno com o “obsoleto” que fazem de projetos como a metareciclagem uma alternativa ao mundo descartável dos eletrônicos.
ANA > O que você acha da idéia de ônibus e trens reservarem um espaço para a bicicleta, caso uma pessoa queira fazer um percurso longo, “casado”?
Philipe < É uma ótima idéia. Algumas pessoas que conheço já fazem isso com suas bicicletas dobráveis, em que o quadro dobra e a bicicleta fica com um volume 50% menor. É uma alternativa, mas custa muito caro. Enquanto aqui se compra uma bicicleta com marcha por menos de duzentos reais, uma bicicleta dessa é, no mínimo, setecentos. Ao pensar em políticas públicas aí vejo que é viável e um mínimo de mobilização popular pode tirar essa sua sugestão do mundo das idéias e colocá-la em prática.
ANA > Há alguns anos atrás era muito comum o “sistema” de caronas em Fortaleza, ver as pessoas acenando com os dedos nas ruas. Isso ainda acontece?
Philipe < Não é do meu tempo não!”. [risos] Isso é muito comum em quase todas as cidades do Ceará. O transporte público funciona razoavelmente apenas na região metropolitana da capital, no restante do estado existem poucos ônibus e a maioria é capital-interior, não há muitos ônibus “de linha” nas cidades além dos “carros de horário” – paus-de-arara – que saem das localidades mais distantes bem cedinho para a cidade mais próxima e retornam antes do meio dia. Resultado: quem se atrasa pede carona!
continuará…
agência de notícias anarquistas – ana
Janela fechada:
borboleta na vidraça
dá cor ao meu dia
(Anibal Beça)
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No último sábado fui a comunidade de Curral Velho, situada no município de Acaraú-CE, para uma manifestação pacífica e em solidariedade à luta contra a indústria do camarão (carcinicultura), que tem destruído grandes áreas de mangue em nosso litoral, como também na maioria dos países de clima tropical em todo o mundo.
Cerca de 300 pessoas estiveram no ato, que se chamava o terceiro “Desate da Zona Costeira do Ceará”. A comunidade de Curral Velho teve seus direitos humanos e ambientais violados no último 7 de setembro, quando algumas pessoas da comunidade – incluindo adolescentes – foram agredidas à bala por estarem em defesa da área de manguezal, de preservação permanente, que estava sendo destruída por uma das muitas empresas que trabalham com a carcinicultura na Bacia do Rio Acaraú.
A caminhada partiu do centro da comunidade ao lugar onde as pessoas foram agredidas. Lá houve uma celebração com muitos depoimentos de pescadores(as), marisqueiros(as), índios(as), professores(as) e estudantes universitários, como também músicas, orações e dança indígena, celebrada pelos Índios Tremembés.
Quase no fim do ato, um companheiro do MST da região, falou que em Itapipoca o MST está ocupando algumas terras sob o risco de se tornarem viveiros de camarão, para desenvolver a agricultura. E, no fim do seu depoimento, disse uma frase que não saiu da minha memória: “Latifúndio do camarão, nós fizemos ocupação, pra plantar milho e feijão!”.
Nunca eu tinha pensado na carcinicultura como um “latifúndio do camarão”. Sempre atrelava a atividade ao desrespeito à cultura das comunidades tradicionais e pela grande destruição do ecossistema manguezal. Agora, com esta frase, lembro das extensas terras – sobretudo no Equador – em que a indústria do camarão usou para o latifúndio. Hoje, muitas destas terras viraram grandes desertos, onde não há vida e muito menos “desenvolvimento” – palavra do dia para todo “bom” empreendedor, político ou mercadológico.
Sábado desatamos o nó da carcinicultura, mas há tantos outros nós para serem desatados que temos que nos unir, antes de mais nada, para que em todas as partes tenhamos os nós desatados.
Temos que trabalhar junto com os companheiros que lutam contra o latifúndio da terra, em busca da reforma agrária. Uma reforma agrária longe dos moldes do Incra, do produtivismo e do administrativismo.
Temos que trabalhar junto com os que lutam contra a mercantilização da água, pois já há em nosso estado um grupo muito poderoso, que quer que a gente comece a pagar pela água. Hoje pagamos pelo tratamento e distribuição, mas esse grupo de políticos e empresários quer privatizar a água e somos contra por termos claro em nossas mentes que a água é um bem de todos os seres vivos, incluindo os humanos.
Temos que trabalhar junto com os ativistas que lutam pela Reforma Agrária do Ar, em muitas rádios livres e comunitárias do Brasil e do mundo, entendendo que o ar é de todos, assim como o direito de se comunicar – batendo de frente contra a política latifundista da Anatel, em busca da socialização do dial.
Enfim, contra o latifúndio do camarão e da terra, contra a mercantilização da água e pela reforma agrária do ar, temos que – juntos! – desatarmos os nós em todas as partes!
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